Obesidade infantil: causas, prevenção e tratamentos

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Hoje é 3 de junho, Dia da Conscientização Contra a Obesidade Mórbida Infantil. O objetivo da data é conscientizar as famílias sobre os cuidados para combater esta doença, um dos mais desafiadores problemas de saúde pública do século 21.

Dados de 2019 do Ministério da Saúde revelam que 15,9% das crianças menores de 5 anos e 29,3% entre 5 a 9 anos estão com excesso de peso no país, o que representa 4,4 milhões de crianças acima do peso. Mais de 2 milhões delas têm sobrepeso, aproximadamente 1 milhão sofre de obesidade e cerca de 750 mil crianças têm obesidade infantil grave.

No mundo todo, a obesidade infantil aumentou 10 vezes nas últimas quatro décadas e deve ultrapassar a desnutrição até 2022, aponta estudo da Organização Mundial de Saúde com o Imperial College de Londres. O modo de viver da sociedade contemporânea é marcado por um padrão alimentar que, aliado ao sedentarismo, não é nada favorável à saúde da população em geral, e isso se reflete no estilo de vida das nossas crianças.

Além dos riscos futuros, as crianças obesas sofrem problemas emocionais que impactam na autoestima, com aumento do risco de fraturas e hipertensão, além de terem marcadores precoces de doenças cardiovasculares, entre outros, e seus efeitos psicológicos.

Aqui, a pediatra Carolinne Santin Dal Ri, do Nasce Criança, traz orientações e informações sobre o tema.

Como identificar a obesidade infantil?

Adultos são avaliados pelo IMC (peso[kg]/altura [m²]), um indicador de gordura corporal específico da idade e do sexo como ferramenta investigativa principal para obesidade. Mas para avaliar crianças, outros fatores e métricas são levados em conta, como as curvas de crescimento. Os indicadores estão relacionados com peso, altura e idade das crianças – e é por isso que as consultas periódicas ao pediatra são tão importantes em todas as fases do desenvolvimento. Além disso, o médico que acompanha a criança fará uma anamnese completa e exame físico para descartar qualquer doença genética associada.

Calculadoras chanceladas por organizações como a OMS permitem o diagnóstico da obesidade infantil para profissionais da saúde. O pediatra é essencial no atendimento ambulatorial das crianças e dos adolescentes, o que permitirá a intervenção frente à obesidade em qualquer ponto da sua evolução. O atendimento aos adolescentes também permite a orientação preventiva oportuna. Somente a partir dos 19 anos o cálculo simples do IMC será usado para diagnosticar obesidade.

Nas consultas é realizado o monitoramento de medidas antropométricas como peso corporal, estatura e circunferência abdominal, avaliação de pressão arterial e do hábito alimentar, estímulo da prática de atividade física regular e diagnóstico de dinâmica e estilo de vida familiar.

Uma criança obesa será um adolescente ou um adulto obeso?

Há grandes chances de que sim. Crianças acima do peso têm 75% mais probabilidade de serem adolescentes obesos, e adolescentes obesos têm 89% de chance de serem adultos obesos, segundo estudos compilados pelo Ministério da Saúde. Da mesma forma, a probabilidade de filhos de pais obesos (pai e mãe) sofrerem do mesmo problema pode chegar a 80%.

Quando devem começar os cuidados para evitar a obesidade?

A prevenção, na verdade, inicia já desde o pré-natal com os cuidados que a mãe deve ter com seu próprio ganho de peso e alimentação balanceada, com orientação nutricional materna e controle do ganho de peso corporal. Também o aleitamento materno exclusivo até o sexto mês (e complementar até 2 anos ou mais do bebê) é fator protetivo. Estudos demonstraram a relação entre o aleitamento materno e o menor risco de sobrepeso e obesidade na infância. Ou seja, o maior tempo de aleitamento materno mostrou ser benéfico também nesta questão: o sobrepeso e a obesidade foram maiores entre as crianças que introduziram fórmula infantil e sólidos antes e até o quarto mês de vida (da mesma forma, a suplementação ou a introdução precoce de alimentos dobrou o risco de sobrepeso ou obesidade).

Que fatores contribuem para a obesidade infantil?

A obesidade é multifatorial. O principal fator que contribui para a obesidade infantil atualmente é o estilo de vida das famílias. Ainda que o ganho excessivo de peso esteja relacionado diretamente ao consumo alimentar e à prática de atividades físicas, diversos fatores impactam fortemente na questão, não sendo apenas situações individuais, mas também influências ambientais e sociais.

É fundamental que os pais entendam desde cedo que hábitos alimentares não precisam de demonstração ou ensino formal para serem aprendidos pelas crianças. Os hábitos se tornam
modelos de comportamento para as crianças pelo simples fato de ocorrerem rotineiramente na família.

O papel da escola também impacta diretamente no comportamento das crianças. Recentes iniciativas de políticas públicas passaram a monitorar a oferta de alimentos nos colégios (aliás, 40% das calorias consumidas durante o dia de uma criança/adolescente são em ambiente escolar), proibindo a venda de doces e refrigerantes, por exemplo, bem como regular o marketing disposto nos anúncios das cantinas escolares.

O consumo de produtos com alto teor de açúcar e gordura começa cedo no Brasil. Levantamento da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) com o IBGE revelou que 60,8% das crianças com menos de dois anos de idade comem biscoitos, bolachas e bolos e que 32,3% tomam refrigerantes ou suco artificial.

A publicidade em geral também é um dos fatores relacionados ao aumento da obesidade em crianças por estimular o consumo de escolhas alimentares nem sempre saudáveis. É sabido que a propaganda e o marketing exercem influência no comportamento do público infantil, sendo que órgãos de fiscalização recebem denúncias de práticas abusivas em todos os veículos. A sobremesa disfarçada de iogurte com os personagens do momento, a bolacha com gordura trans sabor fruta com o emblema dos super-heróis e o leite achocolatado ultraprocessado com embalagem de desenhos infantis estimulam o consumo excessivo por parte de quem ainda não tem o discernimento necessário para entender o que é saudável ou não.

Qual a relação entre sedentarismo, uso de eletrônicos e obesidade infantil?

O recomendado mínimo de atividades físicas intensas (correr, pular, brincar no parquinho) para crianças é de 20 minutos a uma hora por dia, 5x por semana, no mínimo. Um dos problemas da atualidade é o excesso de uso de telas: quanto mais tempo as crianças ficam em eletrônicos, menos exercícios fazem e mais calorias consomem. Vários estudos comprovam a relação entre eletrônicos e obesidade: quanto mais tempo de tela, mais relação com a obesidade infantil. 

O consumo passivo também deve ser evitado, como por exemplo deixar a TV ligada pela casa mesmo quando não há ninguém vendo. Pode acreditar: as crianças sempre encontrarão o que fazer se o tempo com os dispositivos eletrônicos for restringido. E seja qual for a outra atividade encontrada, certamente será muito mais produtiva e saudável.

Para quem deseja saber ainda mais sobre o assunto, indicamos a leitura dos resultados do estudo multicêntrico ERICA (Estudo de Riscos Cardiovasculares em Adolescentes), realizado em diferentes regiões do Brasil que traz informações surpreendentes sobre sedentarismo e prática de atividade física.

Quais os tratamentos e indicações para casos de obesidade infantil?

Tudo passa pela MUDANÇA DO ESTILO DE VIDA, principalmente na criação e manutenção de hábitos alimentares saudáveis. Uma vez identificado o problema, é feito acompanhamento com equipe multidisciplinar 1x ao mês – ou se possível 1x por semana nos primeiros 3 meses, abrangendo: dieta e acompanhamento nutricional, com prescrição de atividade física e acompanhamento comportamental.

Este boletim (PDF) da Sociedade de Pediatria de São Paulo traz para as famílias tópicos detalhados sobre cada item comportamental infantil que impactam na obesidade.

Rotinas para a criança e o adolescente:
• Horário de sono: cuidar a hora de início e fim do sono noturno e diurno (se houver).
• Tempo de tela: horários do dia e intervalos de tempo que dedica ao uso de celular, computador, tablets, TV, games.
• Tipo de atividades na tela: pesquisas, trabalhos escolares, jogos, troca de mensagens.
• Diário alimentar: horários, dieta habitual (qualidade e quantidade); refeições e lanches fora de casa.
• Ambiente das refeições: em família à mesa, sozinho, sem eletrônicos como distração.
• Atividades sociais: escola, atividades físicas, amigos e atividades de lazer.

O relatório da Sociedade de Pediatria de SP traz ainda dicas para estimular a prática de exercícios em família com as crianças conforme a faixa etária. Vale a pena conferir!

O tratamento para obesidade infantil inclui medicações?

Medicação somente depois que a modificação do estilo de vida falhar ou quando houver comorbidades graves. Como falamos antes, o principal tratamento é a mudança dos hábitos da criança (não raro, de toda a família).

Em alguns casos, há ainda indicação de cirurgia bariátrica (somente para adolescentes já com maturidade esquelética praticamente completa e estágio de Tanner 4/5, índice que avalia a maturação sexual), com IMC maior do que 35 (com comorbidades) ou maior do que 40, sempre com equipe multidisciplinar de acompanhamento e avaliação psicológica. Estudos recentes no mundo têm acompanhado realização e impactos posteriores de cirurgia bariátrica em crianças mais jovens, a partir dos 13 anos, mas ainda são casos recentes.

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